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Escolas buscam caminhos para que os tablets não fiquem desprovidos de sentido pedagógico; pouca oferta de material didático para a plataforma é um dos entraves.

A princípio, a cena parece de uma escola do futuro. Tem-se uma sala com lousa digital, alunos com tablets em vez de livros e cadernos. Mas após projetar uma imagem é tocar música, o professor pede para que todos acessem o segundo capítulo e inicia sua tradicional exposição do tema. A aula em questão é imaginária, mas ilustra uma preocupação recorrente dos educadores: a de incorporação da tecnologia represente apenas uma mudança de plataforma, sem atingir seu potencial de transformação do processo ensino-aprendizagem.

O tablet – que reúne características de armazenagem e processamento de um computador, com a leveza e portabilidade de um único livro – é novo equipamento a entrar pelos portões das escolas prometendo uma revolução no ensino. Desde meados de 2011, projetos-piloto com o aparelho vêm ganhando destaque na mídia e servindo de vitrine para as instituições que os lançaram. Mas como tudo o que é novo em educação, ainda é impossível mensurar o impacto que o uso das ferramentas está acarretando para além do alívio no peso das mochilas.

Algumas pesquisas, em geral realizadas no EUA, apontam para uma maior consolidação dos conteúdos e melhora nos resultados de trabalhos em grupo quando se usam dispositivos digitais móveis em sala. Em um dos estudos mais longos com tablets, duas classes da escola de ensino fundamental Amelia Earhart, na Califôrnia, passaram um ano letivo aprendendo álgebra com o programa HMH Fuse, enquanto as outras tiveram aulas da disciplina usando o livro tradicional. No fim do ano, 78% dos alunos das classes que usaram os tablets alcançaram o nível de proficiência ou avançado em um teste estadual; entre os que estudaram com o livro impresso, o índice foi de 59%. Os dados, porém, são inconclusivos, já que a pesquisa não conseguiu isolar o fator tecnológico.

Professores que trabalham com os aparelhos relatam que os estudantes estão se mostrando mais interessados e participativos. Mas alertam que para dar uma boa aula exige mais preparo – pois toda a informação passada pelo docente pode ser checada na hora pelo aluno – e criatividade. “O professor precisa saber como quer usar o aparelho, para que não seja fonte de distração”, conta Renato Aloisio Laurato, professor de física do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo (SP). Na escola, que começou a usar tablets no segundo semestre do ano passado, todos os alunos do 1º ano do ensino médio usam um mesmo modelo, entregue a eles em sistema de comodato. “No começo, demora mais para preparar a aula. Depois, o próprio aluno começa a ser parceiro na triagem do material, a preparação acaba sendo responsabilidade dele também”, reconhece Laurato, um dos responsáveis pela implantação do projeto dos tablets.

MAIS QUE TECNOLOGIA

A transformação do estudante em coautor da aula não inicia com a simples oferta da nova ferramenta – a questão já constava como parte do projeto político-pedagógico da escola. “Usamos um sistema que o professor prepara um roteiro de aula. Previamente o aluno sabe que ações terá de percorrer e chega em classe trazendo algumas informações”, explica. O processo, diz Laurato, acontecia antes dos tablets, mas foi agilizado pelo uso dos aparelhos.

“O bom uso de tecnologias, sejam tablets, netbooks ou até celulares, precisa de intencionalidade: o que o professor quer provocar, que competências quer desenvolver?”, explica Roseli de Deus Lopes, do Centro de Instrumentação em Tecnologias Interativas da Universidade de São Paulo (Citi, USP), e consultora do programa Um Computador por Aluno (UCA).

Roseli corrobora com a ideia de que contar com a ajuda dos próprios estudantes é uma estratégia útil para tornar a adoção da tecnologia mais eficaz. Essa foi uma das ideias que norteou o projeto do colégio de Porto Seguro, também em São Paulo. Um grupo de alunos foi convidado no primeiro semestre do ano passado a integrar a equipe de estudos que escolheu um modelo de tablet adquirido pela escola. Agora, com ajuda de desenvolvedores profissionais, alunos devem começar a desenvolver aplicativos educacionais para a plataforma. “Identificando as necessidades da escola, achamos que poderemos ir além”, afirma Renata Pastore, diretora de tecnologia da educação.

POTENCIAL DESILUSÃO

Quando os primeiros computadores pessoais chegaram ao mercado, na década de 80, geraram a expectativa de que transformariam a prática em sala de aula. Depois a mesma esperança repetiu-se na década de 90 com o surgimento da internet, e nos anos 2000 com a explosão das redes sociais, que possibilitaram um aprendizado colaborativo. Se é ingênuo acreditar que nada aconteceu desde então, tampouco se viram mudanças estruturais no sistema de educação.

“Qual é a importância hoje de alguém saber informações decor, quando se pode consultartudo instantaneamente? Mas os principais vestibulares continuam cobrando conhecimentos enciclopédicos”, diz o pesquisador Sérgio Amaral, do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação (Lantec) da Universidade Estadual de Campinhas (Unicamp).

De acordo com o pesquisador, para tirar proveito de todo o potencial trazido pela tecnologia, os colégios precisam apoiar seu projeto pedagógico sobre três eixos – linguagem multimídia, coautoria dos alunos e aprendizado colaborativo. Embora as experiências com tablets estejam se mostrando bem aceitas, poucas conseguem abarcar os três eixos: “Não adianta só usar recursos multimídia, mas reproduzir um conteúdo fechado, que já vem pronto da editora”, exemplifica Amaral. Outra opção que reduz o impacto positivo dos tablets, diz, é não liberar o uso on-line, ou criar firewalls para tentar evitar conteúdos indesejáveis. “Fora daquele ambiente a criança tem acesso a tudo. E o aprendizado não pode ficar fechado em sala de aula, ele tem de ir para a internet, trocar com outras escolas”, afirma.

O modelo adotado inicialmente pelo Colégio Catarinense, de Florianópolis (SC), era exatamente este a que se refere Amaral: só previa o uso off-line, pelo temor de que o acesso à rede provocasse “distração”. A política, porém, está sendo revista. “O comportamento dos estudantes foi tão bom que já estamos liberando o uso da internet, embora com filtros”, diz Afonso Luiz Silva, coordenador pedagógico do ensino médio.

PAPEL DE ORIENTAR

Os alunos do Colégio Cruzeiro do Sul, em São Paulo, que receberam a partir de maio tablets para uso educacional, encontrarão alguns filtros. Mas os docentes reconhecem que o que vale mesmo é uma boa orientação. “Em casa, eles podem baixar o conteúdo que quiserem. O professor precisa estar sempre atento para ver qual é o uso que o aluno está fazendo do equipamento”, afirma Wanderley Vichinsky, coordenador do ensino técnico e responsável pela capacitação dos docentes que vão atuar com os tablets.

Mas ter filtros não significa classificar as redes sociais como indesejáveis: mais do que liberadas, o acesso a elas será incentivado. “Entre as atividades a serem propostas está a criação de grupos de discussão em site como Facebook, para criar grupos de estudos virtuais”, diz Vichinsky. No Colégio Atual, de Recife, a prática de orientar para o uso adequado das tecnologias tem mostrado os primeiros resultados mesmo depois de apenas dois meses de projeto, garante Ana Elizabeth Calabria, diretora pedagógica do ensino fundamental: “Nosso papel é orientar a fazer uma boa pesquisa, ter uma leitura crítica, levantar discussões. E vemos que os alunos a partir do 6º ano já estão sabendo identificar que alguns sites não são confiáveis”.

Ao incentivar que o estudante se transforme em protagonista do próprio aprendizado, a função do docente como um guia se torna ainda mais necessária. Ele deve oferecer um repertório de atividades produtivas, interessantes e fontes confiáveis de informação. “Cabe aos professores propor uma leitura crítica, fazer indagações, passar exercícios que exijam raciocínio sobre as informações disponíveis, para que o aluno construa o conhecimento”, avalia Mary Rangel, professora de didática da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense e uma das autoras do livro Educação com Tecnologia, da editora Wak. “O tablet é válido como um meio, não como um fim. Ele é muito útil como fonte de consulta, mas não pode suprimir a criatividade do aluno, nem o diálogo em sala de aula”, diz Mary.

LISTA DE DESAFIOS

Ensinar o professor a usar uma nova ferramenta, muda o paradigma do docente como transmissor de conteúdo, incentivar a troca de conhecimentos, acompanhar os alunos de perto para orientar e verificar como está sendo o uso da tecnologia é apenas algumas das exigências criadas quando se adotam tablets nas escolas. Outro grande desafio tem sido buscar alternativas a pouca oferta de material didático para a plataforma. Segundo o Instituto de Pesquisas e Administração da Educação (Ipae), as principais editoras ainda se preparam para entrar de fato no mercado digital.

A previsão para oferta de acervos completos ficou mesmo para 2013. A maior parte do material existente é ligado aos livros em papel: o estudante precisa adquirir a versão impressa para acessar a digital, que em geral é uma repetição do papel com alguns poucos recursos a mais.

“Tínhamos a expectativa de que teríamos já este ano muitos livros no formato, mas a verdade é que isso não aconteceu. Quando existe, é só uma espécie de pdf do livro impresso”, relata Sílvia Vampré Marchetto, coordenadora de tecnologia educacional do Colégio Bandeirantes, em São Paulo. “Do colégio, todas as apostilas estão disponíveis também em formato digital, então, se o aluno quiser, dá para se livrar de um bom peso”, conta. Portanto, os alunos do Bandeirantes têm usado os tablets em substituição ao caderno, ou em atividades específicas, como fazer um tour virtual por cidades da Espanha e México durante as aulas de espanhol.

No Colégio Sigma, de Brasília, a solução encontrada foi elaborar um material didático próprio para o 1º ano do ensino médio, estratégia que deu trabalho e mexeu radicalmente na forma como professores e alunos se comportam em classe. O primeiro impacto foi no peso – o tablet substituiu 16 livros. “Agora circulo muito mais pela classe, fato que me faz perceber as dificuldades dos alunos de forma mais imediata”, complementa Eli Carlos Guimarães, professor de português e redação. “A vantagem de o material ter sido escrito por nós é que ele está customizado para nossa realidade. Com isso, o aluno ficou mais participativo e até o número de quem não faz atividade em casa está caindo”, diz.

Para o Brasil como um todo, porém, o maior desafio é não criar mais uma forma de exclusão. O movimento de levar tablets às salas de aula, puxado pela rede particular, deve começar a chegar ao sistema público ainda este ano. O governo federal está investindo cerca de R$ 150 milhões para oferecer tablets e treinamentos para professores. Serão contemplados 600 mil docentes, número impressionante, mas ainda pequeno perto dos 2 milhões que lecionam no ensino básico do País. O governo federal informa que a distribuição começará por escolas de ensino médio da zona urbana, que tenham banda larga, laboratório do Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo) e rede sem fio.

 

Fonte: Revista Educação – ano 16, nº 181, p.82 a 86
Imagem: WavebreakmediaMicro/Fotolia